Existe uma pergunta que raramente fazemos com honestidade:

Do que, exatamente, estou fugindo?

Porque, muitas vezes, acreditamos que estamos fugindo de uma situação, de uma pessoa, de uma lembrança ou de uma dor.

Mas, em algum lugar do caminho, percebemos que aquilo do qual tentávamos escapar continuava nos acompanhando.

Mudavam os lugares.

Mudavam os relacionamentos.

Mudavam os projetos.

Mudavam as circunstâncias.

Mas algo permanecia.

Silencioso.

Esperando.

Dentro de nós.

A verdade é que o ser humano desenvolve inúmeras formas de fuga.

Algumas são evidentes.

Outras são socialmente admiradas.

Há quem fuja através do excesso de trabalho.

Há quem fuja através da produtividade constante.

Há quem fuja preenchendo cada minuto da agenda.

Há quem fuja através do controle.

Há quem fuja através dos relacionamentos.

Há quem fuja através da comida, das compras, das redes sociais ou da necessidade incessante de distração.

Nem sempre percebemos.

Porque muitas dessas fugas parecem funcionar.

Por um tempo.

Elas anestesiam.

Distraem.

Ocupam.

Mas não curam.

A dor que não é acolhida não desaparece.

Ela apenas muda de lugar.

E encontra outras formas de se manifestar.

Às vezes como ansiedade.

Às vezes como cansaço.

Às vezes como irritação.

Às vezes como vazio.

Às vezes como a sensação persistente de que falta alguma coisa, mesmo quando aparentemente está tudo bem.

O psicólogo escreveu que aquilo que não trazemos à consciência tende a se manifestar em nossa vida como destino.

De alguma forma, aquilo que evitamos continua nos chamando.

As emoções que ignoramos continuam pedindo atenção.

As partes de nós que foram rejeitadas continuam esperando reconhecimento.

A cura não acontece quando eliminamos todas as dores.

A cura acontece quando deixamos de lutar contra elas.

Quando paramos de gastar energia tentando esconder nossas vulnerabilidades.

Quando abandonamos a guerra interna.

Quando compreendemos que sentir não é sinal de fraqueza.

É sinal de humanidade.

Existe uma imagem muito presente em diversas tradições ancestrais: a da travessia.

O herói não encontra o tesouro evitando a floresta.

Ele precisa atravessá-la.

A transformação não acontece contornando a escuridão.

Ela acontece quando temos coragem de caminhar por ela.

E isso vale para a vida emocional.

Existe um momento em que não podemos mais continuar correndo.

Não porque somos obrigados.

Mas porque estamos cansados.

Cansados de sustentar máscaras.

Cansados de parecer fortes o tempo todo.

Cansados de carregar dores antigas sem olhar para elas.

Cansados de viver distantes da própria essência.

E talvez esse seja o momento mais sagrado de uma jornada de cura.

Quando paramos.

Quando respiramos.

Quando olhamos para dentro.

E, pela primeira vez, deixamos de perguntar:

“Como faço para não sentir isso?”

Para perguntar:

“O que essa dor está tentando me ensinar?”

Porque toda emoção carrega uma mensagem.

Toda ferida guarda uma história.

Toda parte rejeitada de nós deseja apenas ser vista.

A cura não começa quando nos tornamos perfeitos.

Não começa quando resolvemos tudo.

Não começa quando deixamos de sentir medo.

A cura começa quando nos aproximamos de nós mesmos com a mesma compaixão que oferecemos às pessoas que amamos.

Quando deixamos de ser nossos próprios inimigos.

Quando paramos de nos abandonar.

Quando finalmente compreendemos que aquilo que procurávamos do lado de fora talvez estivesse esperando, pacientemente, dentro de nós.

E então algo muda.

Não necessariamente no mundo.

Mas dentro do coração.

Porque a fuga termina.

E o reencontro começa.

Talvez seja isso que chamamos de cura:

o momento em que paramos de correr de nós mesmos e descobrimos que, no centro de tudo aquilo que temíamos encontrar, existia apenas uma parte da nossa alma esperando para voltar para casa. 🤍🌿✨

Por Fabíola Ferrari

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